Resenhando: A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken – Jostein Gaarder e Klaus Hagerup

Embora muita gente pense que são livros para criancinhas pequenas, eles são ainda mais legais quando crescemos. Eles nos fazem lembrar de coisas que já esquecemos. (…) Além disso, eles nos dão uma certa sensação de segurança o meio da confusão do mundo (p. 97).

Encontrei esse livro como destaque na Biblioteca do SESC Bom Retiro. Li, na contracapa, algumas palavras que me chamaram atenção: história, livros, biblioteca, fascínio. Isso foi o bastante para emprestar esse livro. A bibliotecária me disse “é um livro interessante, para literatura infanto-juvenil. Mas poderia ser mais”. Hesitei um pouco com seu comentário, mas perguntei-lhe “é do mesmo autor de ‘O mundo de Sofia’, não?”, ao passo que ela afirmou positivamente com a cabeça, e eu respondi “‘O mundo de Sofia’ me fez ler muitos livros de Filosofia, quando tinha 16 anos. Se for um pouco parecido com ele, já está de bom tamanho!”. E foi nesse misto de expectativas que iniciei a leitura do livro “A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken”.

Mesmo assim vou escrever, pois tenho a sensação de pensar melhor quando escrevo do que quando falo (p. 109).

A começar, a narrativa é escrita em forma de carta, trocada entre os primos Nils e Berit que vivem em diferentes cidades da Noruega. Hoje em dia, são poucas as pessoas que trocam cartas, se tornando um gênero, cada vez mais, longe de nossos hábitos. Mas mais do que isso, é um livro de carta. Os dois compram um caderno com folhas em branco e passam a se corresponder, após uma viagem de férias quando escrevem uma poesia coletiva. Eles passam por um processo de escrita intenso.

Eu estava cercada por milhares, talvez milhões de livros. Mas toda vez que eu iluminava um livro, era um título ou um autor do qual eu já tinha ouvido falar. E eu nem conheço tantos livros ou escritores antigos assim… (p. 104).

Quando encontram uma livraria e compram esse caderno que, se tornará o livro de cartas, Nils encontra uma mulher, Bibbi Bokken, vagando por entre as estantes e olhando os livros como uma espécie de encantamento (“como se fossem de chocolate de marzipã”). Essa mulher misteriosa e encantada ser tornará o mote para o começo dessa história, em um estilo de investigação. Nils é um garoto de 12 anos e com uma enorme imaginação para criar histórias, e Berit, sua prima mais velha, tem 13 anos e possui uma incrível capacidade investigativa e racional. Os dois passam então a procurar pistas sobre essa misteriosa mulher, bibliotecária e bibliógrafa.

Acho que isso diz muito sobre escrever e também sobre ler. Quando leio um livro de que gosto, parece que o que estou lendo faz meus pensamentos saírem voando do livro. De certa forma, o livro não é feito apenas por palavras ou pelas figuras que estão no papel, mas também por tudo o que invento quando leio (p. 32).

Leitura e escrita se misturam. A investigação dos dois primos ao tentarem saber quem é Bibbi Bokken e o que ela planeja, o que é a Biblioteca Mágica, se misturam com a sede de conhecimento dos dois. Eles buscam, através de coleta de informações, comparações com leituras de livros, escritas, conversas com adultos, ou seja, formas díspares para chegar às respostas de quem é Bibbi Bokken. Escrita e oralidade se misturam, a ponto de se tornarem diferentes fontes de informações que necessitam. Eles se formam durante o percurso do livro (que me fez lembrar da categoria de romances de formação). Se tornam mais reflexivos, com mais conhecimento e empreendem novas aventuras.

Passeio pelas estantes da biblioteca. Os livros me dão as costas. Não para me rejeitar, como as pessoas: são convidativos, querendo apresentar-se a mim. Metros e mais metros de livros que nunca poderei ler. Eu sei: o que aqui se oferece é a vida, são complementos à minha própria vida que esperam ser postos em uso. Mas os dias passam rápido e deixam para trás as possibilidades. Um único desses livros talvez bastasse para mudar completamente a minha vida. Quem sou eu agora? Quem eu seria então? (p. 146).

Um dos aspectos que mais me cativou foi esse olhar sobre a biblioteca. Tudo bem, sou bem suspeita para falar desse tema, mas é o espaço é retratado de maneira mágica (a começar pelo título do livro), apresentando sua organização real. Isso porque até Melvil Dewey (1851-1931) é citado através da criação de um sistema classificatório por assunto, divididos em grupos e subgrupos, a “Classificação Decimal de Dewey” ou o conhecido CDD, da área biblioteconômica. O espaço é retratado com um lugar que emana conhecimento, e que em si mesmo, possui um conhecimento próprio de funcionamento e organização. A biblioteca, mágica, pública, escolar, é onde se preserva, cria novas realidade s, proporciona conhecimento e informação, tão necessário à sociedade.

Mas eu também me sinto muito bem na minha própria companhia – e na de todos os meus livros. Alguém disse uma vez: ‘Um bom livro é o melhor amigo’. Outra pessoa expressou isso de forma semelhante: ‘Quem escolhe bem os seus livros estará sempre na melhor das companhias. Neles nos encontramos com os caracteres mais ricos de espírito, mais sábio e mais nobres, que constituem o orgulho e a glória da humanidade’ (pp. 146-147).

O trecho é de Simen Skjønsberg, em “O prazer assombroso – textos sobre os segredos da leitura”. Assim como em “O mundo de Sofia”, os autores exploram as sugestões literárias noruegueses. A maioria dos livros citados não tem tradução ao português, mas só de serem citados, ainda que rapidamente, já aguçam nossa curiosidade. A fórmula repetida de referências de livros cumpre seu papel, desde clássicos até a literatura norueguesa, faz surgir uma vontade de ler todos os livros!

A biblioteca mágica está cheia de possibilidades, das quais em algum momento surgirão livros. Em alguns séculos, das fantasias reunidas nesta sala poderão surgir preciosos incunábulos. As palavras certamente se combinarão de outras maneiras. As frases não serão as mesmas. Mas aqui está o berço do que será a língua do futuro. Assim é a literatura quando recém-nascida. E a verdadeira magia da nossa vida é o nascimento (p.151).

O livro “A Biblioteca de Bibbi Bokken” é uma ode aos livros, à leitura, à produção textual, ao processo editorial, às bibliotecas e, não mais que importante, à imaginação. E que não esqueçamos, existem livros atemporais, sem faixa etária e sem gênero, basta abri-los que um mundo se abre aos nossos olhos!


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